Após ser condenada, escola de samba que zombou de Bolsonaro acaba d… Ver mais

O rebaixamento da escola de samba Acadêmicos de Niterói para a Série Ouro do carnaval carioca, anunciado nesta quarta-feira, 18, provocou forte repercussão no meio político e nas redes sociais. A decisão, que faz parte da dinâmica de avaliação técnica dos desfiles, ganhou dimensão nacional após ser comemorada por parlamentares de oposição ao governo federal. Entre eles, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que utilizou suas plataformas digitais para associar o resultado da agremiação a críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A escola entrou no centro do debate após o desfile realizado no último domingo, 15, quando levou para a avenida um enredo em homenagem a Lula. Um dos momentos que mais repercutiram foi a ala que ironizou a expressão “família em conserva”, com integrantes caracterizados como produtos enlatados, estampando o selo “família”. A performance dividiu opiniões e rapidamente ultrapassou os limites da Marquês de Sapucaí, tornando-se tema de discussão entre representantes da direita no Congresso Nacional.
Pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro afirmou que “dos projetos de Deus não se zomba” e classificou Lula como “uma ideia ruim” tanto para governar o País quanto para inspirar um samba-enredo. Em sua publicação, o senador compartilhou uma imagem do desfile com os integrantes caracterizados como latas e acrescentou a legenda: “Acadêmicos de Niterói rebaixada! Quem ataca família não merece aplauso”. A mensagem foi amplamente replicada por apoiadores e gerou milhares de interações em poucas horas.
O episódio também mobilizou parlamentares das frentes evangélica e católica, que consideraram a apresentação desrespeitosa com cristãos. Segundo esses congressistas, a alegoria teria ultrapassado o limite da crítica política ao retratar símbolos associados à família tradicional de forma irônica. Em resposta, oposicionistas passaram a compartilhar montagens com ilustrações de latas em conserva exibindo fotos de suas próprias famílias, numa tentativa de reforçar o discurso de defesa de valores familiares.
Do outro lado, integrantes do meio cultural e defensores da liberdade artística argumentam que o carnaval historicamente incorpora sátira e crítica social como parte de sua essência. Para esses setores, o desfile da Acadêmicos de Niterói estaria alinhado à tradição carnavalesca de provocar reflexão por meio da arte. Eles destacam que o julgamento das escolas segue critérios técnicos definidos previamente, como evolução, harmonia, enredo e alegorias, e que o resultado não deve ser interpretado apenas sob a ótica política.
A controvérsia ocorre em um momento de forte polarização no cenário nacional, no qual manifestações culturais frequentemente ganham conotação partidária. O fato de um desfile carnavalesco se tornar pauta de embate entre parlamentares revela como temas simbólicos, como família e religião, permanecem centrais no discurso público. Ao mesmo tempo, evidencia o alcance das redes sociais como arena de disputa narrativa, onde declarações são rapidamente amplificadas e reinterpretadas.
Enquanto a Acadêmicos de Niterói se prepara para competir na Série Ouro no próximo carnaval, o debate segue ativo e promete novos capítulos. Para analistas, episódios como esse demonstram que o carnaval vai além do espetáculo e pode se tornar reflexo das tensões políticas do País. Resta saber se, nos próximos meses, o foco permanecerá nas alegorias e nos sambas-enredo ou se o embate ideológico continuará a ocupar o centro da avenida — e das timelines.





